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2月12日 Nantes
Uma vez eu tinha 2 anos e quase matei meu pai de susto ao me encontrar sentada na borda da sacada da varanda, com os pezinhos balançando a metros e metros do chão, só pra ver direito o flamboyant que debruçava suas flores vermelhas sobre o muro do prédio. A verdade é que eu nunca gostei de ver através de grades, telas, janelas, vidros, óculos – nada emoldure minha vista. Me faz sentir presa. Eu gosto da visão sem limites e do vento no rosto, já que não posso voar. Ao menos me faz sentir menos enclausurada, já que meus pés têm sempre que estar pregados no chão por causa da gravidade. Gosto de altura. De pôr os pés pra fora da borda e sentir aquele frio na barriga. Nadar é o que mais se aproxima de voar, já que não tenho asas. Só faltava respirar. Ouvir música é um outro vôo de pássaro também. É liberdade. Então se não tenho asas, até o dia em que puder nascer num beija-flor ou um sabiá, (ou até um urubu carniceiro!), vou passarinhando por aí da melhor maneira que puder encontrar. Sobre essa tal felicidade
Pra felicidade, na minha cabeça, sempre existiu uma divisão: a de “curto prazo” e a de “longo prazo”. A primeira, acho é algo mais parecido com o humor, é uma coisa mais momentânea. Você pode estar meio irritada ou eufórica ou melancólica e mesmo assim, no fundo, no fundo mesmo, estar o oposto disso. Do tipo “eu sou feliz e estou satisfeita com a minha vida, mas no momento me encontro irritada”. Isso faz parte. A segunda, acho que é uma coisa mais profunda, é como você se sente com relação à sua vida e às pessoas que estão nela, é uma coisa mais duradoura, que normalmente demora a mudar e se altera na medida em que amadurecemos e que a nossa vida vai mudando. Por isso que eu sempre pensei – e acho que todo mundo também – que felicidade não é um mar de euforia eterna sem direito a seus momentos de crise. No mundo real nada funciona como no kitsch da propaganda de margarina. Nem pra mim existe essa tristeza é um chororô eterno; às vezes a gente pode até achar graça em algumas coisas, rir um pouco, manter a calma, e o sorriso lá no fundo, no fundo mesmo, ser um pouco aguado porque você depois de um momento de leveza, lembra que ainda não está bem de verdade. Outra coisa que eu observei, é que felicidade é 80% como andam minhas relações afetivas – com parentes, amigos, aqueles com quem mais me importo. Porque eles são minha base, meu conforto e o que me prepara pra encarar os outros 20. Quando eu penso que poderia congelar o tempo, para que ele pudesse durar o máximo possível, geralmente é com eles que estou. Não é assim, altruísta não. É puro egoísmo. Eu preciso deles pra ser feliz. Então é assim, mesmo com seus tropeços e crises, mesmo já tendo, na minha vida, sido muito mais feliz e leve do que sou hoje, o que sobra de saldo é que viver é mesmo muito bom. Vai ver é a esperança que nunca acaba, de que tudo melhore, os sonhos que são maiores que o cotidiano massacrante (e delicioso!). Mas por aqui a gente vai vivendo mesmo e é com muita graça. O caminho? A gente descobre. 2月4日 O Kitsch
Uma das coisas com que mais me identifiquei quando li Kundera foi o capítulo que falava sobre kitsch. Foi apaixonante ler aquilo porque era uma idéia acerca das coisas que cutucava constantemente a minha cabeça, então chega o danado e traduz tudo certinho! Eu iria até a república tcheca só pra tacar um beijo nele por isso. Segundo disse, o kitsch seria a tentativa de exclusão de tudo o que há de inaceitável e contraditório na existência humana. Ele não aceita a ‘merda’.
O Kitsch apela para o sentimentalismo, utilizando-se de imagens-chave – a filha ingrata, a pátria traída, as dores do amor, homens públicos beijando criancinhas – sendo o ideal estético de todos os movimentos ideológicos e partidos políticos, propagandas, livros, filmes, religiões, até mesmo nas relações entre as pessoas, todos com seus clichês e imagens-chave. E há até mesmo um kitsch-underground, ou kitsch-anti-kitsch – ninguém está a salvo!
“O Kitsch faz nascer, uma após a outra, duas lágrimas de emoção. A primeira lágrima diz:
– Como é bonito crianças correndo no gramado.
A segunda lágrima diz:
– Como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado.
Somente esta segunda lágrima faz com que o Kitsch seja o Kitsch.”
O universo da cultura de massa atual, cujas exigências de mercado baseiam-se nas tendências gerais de consumo, obedecem ao padrão médio das imagens-chave que formam o kitsch de seu público-alvo, e têm conhecida falta de originalidade e conteúdo na maioria das vezes. Esse é uma de suas expressões mais óbvias – já virou até lugar-comum brincar com a satisfação familiar matinal de um comercial de margarina ou o sucesso com as mulheres que faz um homem que usa Axe. Tenho fé que ninguém é ingênuo a ponto de não notar o que há por trás nesses casos. Mas o Kitsch que eu considero mais perigoso é aquele que mexe com nossos ideais políticos e religiosos, camuflando nos discursos apaixonantes potencial para o fundamentalismo. Foram esses que consumiram milhares de vidas ao longo da história e possibilitaram a adesão a atrocidades como o nazismo. Não que as outras formas também não sejam alienantes e hipócritas.
Os olhos que se enchem de orgulho ao lembrar dos grandes movimentos que culminaram em 1968 também refletem o grande Kitsch por trás do que realmente aconteceu nessa época de grandes idealizações. Não que não tivessem tido grande importância e revolucionado o pensamento ocidental. Isso é inegável. Mas também não exageremos.
“... o que a repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista... mas a máscara de beleza com que ele se disfarça, ... o kitsch comunista.”
Mais além, Kundera ainda diz que, por maior que possa ser nosso desprezo por ele, o Kitsch faz parte da condição humana. E, sendo reconhecido como tal, ele perde seu poder totalitário. Pode-se chorar com um filme sentimental, pode-se empolgar com uma música dita “brega”, sem necessariamente estar se rendendo ao Kitsch. Isso só aconteceria no caso de se levar a sério as emoções despertadas pelas imagens-chave do Kitsch em questão, no caso de se deixar escorrer a ‘segunda lágrima de emoção’ que torna Kitsch o Kitsch.
“O que restou dos agonizantes no Camboja?
Uma grande foto da americana com uma criança amarela nos braços.
O que restou de Tomas?
Uma inscrição: desejava o reino de Deus na Terra.
O que restou de Beethoven?
Um homem carrancudo com uma cabeleira inverossímil que pronuncia com voz soturna: ‘Es muB sein!’
E assim por diante, e assim por diante. Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em Kitsch. O Kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”
E encerra de forma genial. 12月9日 axolotl"Para os astecas eram monstros aquáticos, porque eram diferentes. Vivem sempre dentro de água, ao contrário das outras salamandras que na idade adulta perdem as guelras e passam a viver em terra. Têm uma capacidade única de regenerar qualquer parte do seu corpo que seja cortada, por um número indefinido de vezes. E às vezes são rosados.
O seu nome remete para o grande irmão gémeo de Quetzalcoatl, a serpente emplumada, chamado Xolotl. Xolotl era o psicopompo dos astecas, o que acompanhava as almas dos mortos na sua viagem através do país da morte. Os axolotl vistos ao vivo são impressionantes, apetece tê-los em casa, estranhos e surreais, como pequenas entidades protectoras ou apenas criaturas fantásticas." uaaaau :O 11月26日 Coração Vagabundo
Em algum momento eu pensei que encontrar o cara certo era como pegar um trem, não tem muito o que dar errado, é uma linha reta. Acho que foi isso o que me inquietou, o sentimento de realização, a estabilidade. Meu coração é meio cigano, selvagem, inquieto. Não gosta de batidas compassadas demais. Também não gosta de coisa pela metade, superfície. Ele gosta de se perder e se encontrar em alguém. E se doa por inteiro. Gosta da paz e do conflito, a mão gelada, o frio na barriga.
Eu costumava pensar que de longe, as pessoas sempre são o mais interessante possível. Que tínhamos um universo de coisas a descobrir a respeito de cada um e por isso a cada pessoa que eu conhecia, ficava fascinada. Aí depois que eu me aproximava e conhecia cada detalhe ínfimo, cada atitude sua se tornava previsível, cada intenção sua eu sabia muito bem o que guardava por trás, cada detalhe detestável já havia sido descoberto por mim. Depois então de uma leve des-admiração, de um tédio, batia uma sede por novas descobertas, e outras pessoas passavam a fascinar mais.
Então eu entendi. Consegui me apegar à pessoa justamente por conhecê-la de ponta a cabeça, e isso é o melhor que a comunicação que nos torna tão humanos, permite. Talvez seja mesmo esse o sentido da nossa existência, enquanto seres racionais. Uma comunhão de pensamentos, um entendimento, que ao longo de toda uma vida nem todo mundo consegue ter. Tão bom conhecer o perfume de alguém de longe, o que mais o faz rir, o lugar onde gosta de ser tocado, os sonhos e os medos, e assim um ser a casa do outro. Seus defeitos mais detestáveis e engraçados. E ainda sim ser pega de surpresa com uma atitude completamente nova. E saber, ainda, que com você é igual – e assim você pode se ser por completo.
Aquele homem que leva a vida contando histórias e tocando pandeiro no ônibus, em troca de moedas, aquela vizinha meio maluca, meio caduca, que sempre chama pra um chá, aquele colega que não tem nada a ver comigo, aquela amiga que me conhece há 12 anos e nunca deixou uma conversa cair na mesmice. Tudo agora é absolutamente interessante, de longe e de perto. O inferno e o paraíso estão em nós, a gente é que às vezes parece que não sabe. 10月18日 Rainbowarriors
As coisas às vezes me parecem tão cheias de agonia. É agonia pra rir e assim, enganar o vazio dentro da gente. É agonia pra fazer amigo e assim nunca ficar só. É agonia pra ter sempre o que falar, e assim, nunca ficar em silêncio. E assim, nessa ansiedade, nessa correria, perdemos a naturalidade. Tudo é planejado, as conseqüências, até as inconseqüências, tudo meticulosamente feito para um fim. Acontece que tem hora que minha forcinha interior cansa. E quer mesmo é um olhar com cuidado, mais profundo, um falar como válvula de escape, seguido de um silêncio sereno. Sem a obrigação de mostrar os dentes brancos e sorrir quando tudo o que se quer é um pouco de paz. É um toque delicado que não dependa de um olhar pedinte e o encostar um coração no outro que não dependa de prazer carnal, mas de ouvir um ao outro, batendo descompassados. Eu não quero me vender à aceitação dos outros. Nem achar que ninguém é melhor que ninguém. A cada dia isso parece tão mais forte. Eu quero é trocar os saltos pelos chinelos e me ser inteira, com as falhas e tudo mais. E você também. Eu quero paz e é só. 10月6日 Sobre qualquer domingo dessesOntem eu fiquei de fazer a tarefa que pra mim, é a parte mais nojentinha e chata que se tem que fazer em casa: lavar as louças. Em geral aqui em casa sempre é todo mundo correndo disso e minha mãe praguejando, atrás. Enquanto o som tava ligado nas alturas e eu cantava alguma música em inglês bem alto, que por ora fazia meu pai passar rindo, eu via a água escorrendo pelos pratos, a espuma branca enchendo a minha mão, o cheiro do detergente subindo e no fim das contas os pensamentos da minha cabeça bagunçada iam se assentando.
Minha mãe sempre fez a parte chata dos trabalhos aqui em casa. Pegar fila no banco, esquentar a comida nos domingos, suada na beira do fogão, ajudar impacientemente as meninas nas tarefas, lavar a louça praguejando, ligar 24 horas por dia nervosa pra saber aonde eu estou, enquanto eu me divirto solta por aí. Como se bloqueasse a parte mais chata da vida para que a gente ficasse sempre com a mais legal. Mas por que será que agora que ela viajou, em vez de todo o trabalho chato ter ficado com a gente e a vida ter ficado muito mais estressante, as coisas parecem mais leves?
Vai ver que a vida, na verdade, não é chata. 9月24日 As melhores performances de dança em filmes- Carmen - Carlos Saura (Flamenca)
- Fred Astaire - Puttin' on The Ritz (sapateado)
Um dos maiores dançarinos de todos os tempos.
-Fred Astaire - Casamento Real
A famosa dança no teto
- Save the Last Dance (moderna[?])
- Bande à Part - Jean Luc Godard
(Nouvelle Vague fez uma versão muito legal também, com Dance With Me)
- Lavoura Arcaica (a dança árabe)
- Chicago (Tango)
- Kalluri Vaanil & Kaayndha Niilavo - Crazy Indian Dance
(acho que não é um filme, mas vale a pena pôr)
- Moulin Rouge - Roxanne
- Nos Embalos de Sábado à Noite - Jonh Travolta
Ninguém segura o magricela!
- Cabíria dançando mambo em Noites de Cabíria - Fellini
(Não achei!)
6月12日 O Pequeno Amor
Pois é. Naquele dia eu lembro bem, estava com um soluço há um bocado de tempo, e nem prendendo a respiração, nem tomando o maior susto do mundo, consegui parar. Aí você veio na maior surpresa e calou o meu soluço com um beijo. E engraçado, passou na mesma horinha. Repousou suas mãos quentes e grandes sobre as minhas pequenas, frias, sempre suadas. Mas se quer saber, eu torcia pra que elas continuassem sempre suadas. Porque no dia em que deixassem de ser, eu bem sabia, eu não seria mais tua. A nossa história nunca teve grandes declarações, nem poemas piegas, nem frases de efeito. Era mesmo uma coisinha pequena. Mas quando você olhava dentro dos meus olhos, eu encontrava a minha casa. E quando eu segurava o seu dedo mindinho, você sabia que eu seria sempre a sua pequena. Não cabia o controle sobre o outro, nem os questionários infindáveis. Mas você sabia que eu sempre estava contigo e eu bem sabia que em você, podia confiar. Isso bastava.
E era sempre assim, eu mal podia esboçar alguma raiva, você logo transformava nossa briga em cabeça pra lá, braço pra cá, boca pra lá e pra cá, nossa valsa lenta silenciosa, nosso poema épico calado. As borboletas revirando no meu estomago, teu peito subindo e descendo, ora ofegante, ora tranqüilo, a revolução dentro de mim. Mas no meio de tudo, você parava e olhava bem dentro dos olhos meus, como se fosse pra acreditar que era eu mesmo, e nessa hora eu sabia do tamanho do nosso bem querer. Como se eu fosse a mulher mais linda do mundo mesmo com o batom borrado, despenteada, a unha desbotando. Você me faz querer ser sempre melhor.
Enquanto eu quero o mundo, você quer o calor do conforto. E eu pego na tua mão e faço tu encontrar teu aconchego, enquanto você me cuida das minhas asas e mostra as mil coisas que podemos ser. E eu mesmo sabendo sempre dos seus defeitos explícitos, da tua mania idiota de querer sempre chamar atenção, da insegurança, do teu orgulho que sempre me faz abrir mão do meu, você sempre tentando ser imprevisível e eu sempre sabendo o que se passa na tua cabeça, parece que acabo gostando ainda mais de ti. É, meu bem, talvez você seja pequeno, uma sementinha sem importância, mas sem você, meu sorriso interno fica aguado. 6月11日 Bruta FlorOnde queres revólver sou coqueiro, onde queres dinheiro sou paixão Onde queres descanso sou desejo, e onde sou só desejo queres não E onde não queres nada, nada falta, e onde voas bem alta eu sou o chão E onde pisas no chão minha alma salta, e ganha liberdade na amplidão Onde queres família sou maluco, e onde queres romântico, burguês Onde queres Leblon sou Pernambuco, e onde queres eunuco, garanhão E onde queres o sim e o não, talvez, onde vês eu não vislumbro razão Onde queres o lobo eu sou o irmão, e onde queres cowboy eu sou chinês Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor Onde queres o ato eu sou o espírito, e onde queres ternura eu sou tesão Onde queres o livre decassílabo, e onde buscas o anjo eu sou mulher Onde queres prazer sou o que dói, e onde queres tortura, mansidão Onde queres o lar, revolução, e onde queres bandido eu sou o herói Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou E te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és Onde queres comício, flipper vídeo, e onde queres romance, rock'n roll Onde queres a lua eu sou o sol, onde a pura natura, o inceticídeo E onde queres mistério eu sou a luz, onde queres um canto, o mundo inteiro Onde queres quaresma, fevereiro, e onde queres coqueiro eu sou obus O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim 5月27日 Travessia
Aquele menino esquivo, arredio, com os gestos discretos e as palavras calculadas não chutava gatos pela rua, não jogava pedras nas janelas e seguia bulas de remédio e ordens de mãe como ninguém. Para ele, que sempre tivera uma sucessão de planos organizadamente elaborados e devidamente registrados em lista para um futuro brilhante, a primeira mentira veio a cutucar-lhe a cabeça numa tarde quente qualquer, como uma música insistente. Pois de dezembro a dezembro, entre o dormir e o acordar, nada fazia senão não olhar para o sol para não queimar os olhos, trocar palavras, obedecer ao relógio, não comer biscoitos porque lhe disseram em algum momento que fazia mal, cumprir as obrigações óbvias e seguir meticulosamente tudo o que estava escrito na caderneta que a mãe elaborava. Pois naquele momento, o tal menino soltou, como quem extrai das veias um veneno, a primeira invencionisse. Afinal, para quê limitar-se a viver apenas a superfície dos fatos? Cairia nas profundezas do dizível e do indizível. Além das barreiras do que é e não é passível de acontecer. E assim, foi deixando sair de dentro de si o pirata, o bandido, o mambembe, o errante que nem sabia existir. E junto a eles, foi gastando o diabo de dentro de si aos pouquinhos. Ia se transformando nas próprias mentiras que contava. Ora, aquele tédio reinante no domingo-a-domingo de sua vida então tomou novos caminhos. De suas palavras saíram histórias em giro como todas as cores de borboletas. E se aquilo tudo estivera guardado dentro de si por tanto tempo para sair então com tanta naturalidade, supôs, era a sua essência, seu impulso mais arraigado então vindo à superfície.
Primeiro foi um alívio. Já não importava o ouvinte, se era alguém de quem gostava, se pretendia lhe causar impacto ou quais conclusões lhe tiraria a respeito. Começou como indiferença. Mas não sabia que a indiferença pode ser um ódio disfarçado, que, de tão grande, não podia mais ser alimentado e então se convertia em sossego. Como paciência, sabe? E suspirava de ódio, como se fosse por amor, mas, no mais, não se alterava. Talvez fosse rebeldia pela limitação que impusera a si próprio até então. Talvez fosse uma revolução dentro de si. Talvez não fosse nada. Mas, como acontece quando alguém se perde dentro de si, na ilusão de que, para si, é o que é essencial, subestimou os que ficavam no seu além-corpo. Ora, uma hora se cansam da desimportância, da inverdade, da bobice. Pois os olhos de fora, mesmo de longe, às vezes podem ver tão bem quanto os olhos de dentro – e estes sabiam bem o que estava fazendo o tal menino. Observavam calados. E perderam a paciência. Então, com o afastamento, o menino viu que indiferença também é dor. Que a dor e o prazer do que acontece na carne, no acontecível e no limitado mundo da verdade ainda é mais forte do que a brutal hipocrisia disfarçada do imaginário. Que consome mais e mais numa dependência de efeito efêmero. E, passada a travessia, aquele menino arredio, com os gestos discretos e as palavras não mais calculadas, despedaçou os muros ao redor de si e pôde então viver a própria transparência. Um rosto desnudo, sem máscaras, um pouco defeituoso, mas só seu. 5月20日 As 20 Clarissas
Primeiro eu quis ser veterinária. Tinha uma criação considerável de soldadinhos, borboletas, canários, peixinhos, uma joaninha, um pintinho, dois gatos, um papagaio e um cachorro, imaginários ou não. Inclusive quase criei um gato – de verdade – escondido dentro de uma caixa de sapatos para meus pais não descobrirem, o que só não aconteceu porque a poucos dias da chegada do dito cujo, o próprio se jogou por uma janela e se foi (eu suspeito que ele pressentisse o que estava por vir quando fosse pra minha casa). Na verdade, nunca desisti realmente de cuidar dos meus bichanos, só que depois do fim trágico do meu último cachorro, vou ter que ter minha própria casa pra recomeçar minha criação. Foi pensando nisso que me inscrevi ano passado em ciências biológicas e ambientais. Já me via logo metida em tudo o que é mato, ora salvando as tartarugas marinhas e vendo os mais bonitos corais e estrelas do mar nos meus mergulhos, ora conhecendo sobre tudo o que é bicho, da libélula ao ornitorrinco, e salvando a terra do aquecimento global. Mas entre mim e o meu sonho existia a química orgânica, a químico-física e todos os derivados. Na verdade, eu sempre fui mais da área de humanas mesmo, e quanto ao meu lado mais “selvagem”, hum, acho que o destino dele é ser um hobby.
Não muito depois eu quis ser bailarina. Ora mais, existe profissão mais bonita? Na verdade, sempre me atraiu a idéia de “viver de arte”, da música, da literatura, das artes plásticas, do teatro. Sempre gostei de todas essas coisas, inclusive já fiz um pouquinho de cada e nem tive dificuldades. Acho lindo quem vive disso! Até 2005, sustentei esse sonho e meu pai até me apoiou, dizendo que não se importava que eu fosse uma bailarina lisa se fosse uma bailarina feliz, risos. Claro que minha mãe não ficou sabendo dessa ou ela não estaria entre nós aqui hoje, estaria no Parque das Flores.
E paralelo a isso, claro, sempre investi na carreira de detetive-espiã. Quando morava em Casa Amarela, a grande vibe era fazer um clube ultra-secreto de espionagem. Tínhamos walkie-talkies, carteirinhas, uma porta, uma máquina de escrever e vários membros. A parada era escutar atrás das portas, registrar tudo e tirar conclusões geniais a respeito. Ex. “Doutor Pedro tem um descanso de tela do sport. Conclusão: ele é rubro negro”. “Roseane está comendo goiabas. Conclusão: por isso que ela é gorda. Não pára de comer.” (Eu ainda tenho alguns desses cadernos). Cheguei a pesquisar sociedades secretas como a maçonaria e órgãos como a CIA, procurando por testes de seleção ou algo do tipo. Mas o fato, meu caso Watson, é que essas sociedades são realmente secretas, e eu nunca consegui descobrir.
Então a física entrou na minha vida! Aliás, não a física, mas a física quântica! Ela diz nada menos que o tempo não é linear, pode correr em ritmos diferentes. Que podem existir várias dimensões simultaneamente. Que existem coisas impensadas universo a fora, talvez até vida, planetas, luz, coisas que surgem do nada. Puxa, quanto mistério, quanta beleza! Achando pouco, entrei na onda da astronomia também. Fui além da mitologia e os segredos das estrelas, mas às cores das nebulosas, dos cometas, do universo que nunca pára de crescer. Poderia ser astronauta também! Pisar na Lua! Ficar flutuando na gravidade zero! Dizer “geente, a terra é azul!”. Por que não? Se eu não sonhar grande, nunca vou poder ter realizações grandes. Até hoje pesquiso sobre o assunto, quero saber mais e mais, e busco um telescópio.
Mas então algo me disse que eu estava olhando muito pra cima e esquecendo de ver o que acontecia ao meu redor. A miséria, a hipocrisia, e principalmente, o fato de que quem punha os próprios interesses na frente dos outros agia em favor disso; mas quem se preocupava com a humanidade simplesmente se preocupava em não prejudicar ninguém, achando que já estaria fazendo muito. Ora, mas é por causa da passividade que o mundo não sai do lugar! Eu tinha que fazer alguma coisa! Então o primeiro passo foi: por que os cientistas se preocupam mais com a indústria de cosméticos do que com a cura da AIDS (claro, porque os aidéticos lascados da áfrica não vão fazê-los ricos) – vou ser médica! Vou trabalhar nos Médicos Sem Fronteiras! Minha mãe vibrou. Eu conheci o hospital dela, cutuquei corpos numa feira de anatomia, me animei. Até que a química mais uma vez mudou o curso da minha vida, e eu lembrei que teria que lidar com ela por uns 3 anos de cursinho, depois 5 anos de faculdade (à manhã e à tarde), fora os dois anos de residência. Não, deve ter outra maneira de trabalhar nas causas humanitárias...
Então eu assisti Diamante de Sangue. Nele, a jornalista denuncia para o mundo tudo o que é hipocrisia que acontece na África, e com isso muda um monte de coisa. Ora, eu, que sempre gostei de escrever, e finalmente estaria na área de humanas, ainda poderia trabalhar por um mundo melhor. Mas aí eu lembrei que teria que me submeter aos interesses dos órgãos de imprensa, ao apelo por audiência, e ao fato que todo mundo sabe das tragédias que ocorrem aqui e ali, mas o difícil mesmo é fazer alguma coisa, porque as pessoas da sala de jantar são muito ocupadas em nascer e morrer. Mas nunca desisti totalmente de fazer jornalismo, ainda acho que pode ser muito interessante por essas e outras coisas, inclusive porque você tem que saber de tudo, e não sei se deu pra notar nesse texto daqui, mas é o que eu mais quero! ;)
Também me atraiu a psicologia. Ainda atrai, na verdade. Leio vários livros sobre o assunto e sobre psicanálise, acho muito interessante, necessário pra tudo. Acho que até tenho algum tato pra coisa. Ainda não desisti totalmente. Mas o que eu to fazendo agora é Relações Internacionais. Entrei nesse porque quero conhecer o mundo todo, cada pedacinho, cada curiosidade. Me encanta desde a dança haitiana e o sotaque britânico até os rituais de acasalamento da Chechênia. Tanta coisa pra se conhecer! E além disso, ainda tenho a chance de trabalhar em ONGs internacionais, o que eu sempre quis. Não, eu nunca quis ser diplomata, é a primeira coisa que me perguntam. Porque a primeira impressão que se tem é que ‘diplomatas selam a paz’. Mas a verdade é que eles trabalham em serviço dos interesses de seus países, concordem ou não, sejam benéficos ou não. Sem contar que demora uns 20 anos pra você deixar de ir pros mais caóticos países – morar 4 anos em cada, sem direito de escolha – e TALVEZ ir pra algum que queira. Ok, pode parecer que to viajando loucamente. Mas tá, deixa eu sonhar grande por enquanto, que vou fazendo as coisas do jeito que der. Provavelmente se realizar isso o que quero, iriam surgir novos planos, porque esse tal de ser humano é mesmo muito inquieto. E se não, ué, até lá tenho certeza que vou estar me divertindo muito com o sotaque dos mangueboys e manguegirls, meu bom e velho mar cheio de tubarões e essa bagunça toda que eu tanto gosto.
Entendeu agora o que fez com que, até 8 meses antes do vestibular, minha lista de prováveis cursos tivesse cerca de 20 nomes? 5月12日 Coração Vagabundo
Quando a gente é criança, tudo é mais simples. Sorriso vem de dentro. Abraço é rotina. Amigo é amigo. Sei lá se eu gosto de Balão Mágico e você de Molejo, o que importa é que agora eu vou contar até 10 e você tem que estar bem escondido senão eu te acho e você vai ser o pega. Sei lá se eu e você dizemos que não vamos nunca mais ser amigos porque eu chamei sua mãe de cara de concha e você queria a minha barbie pocahontas, o que importa é que já fazem 10 minutos e a gente já está brincando de novo como se todo o tempo do mundo fosse pouco. Quando eu chego com lágrimas nos olhos, você enxuga com as mãos e me leva pra um mundo imaginário bem bonito criado só pra nós. E quando você chega com aquele espírito de implicância, primeiro eu me irrito, depois me afasto, depois chego com aquele picolé de morango que você tanto gosta e esquecemos do mundo. A gente fica imaginando por que aquele mundo dos adultos é tão complicado, tão cheio de problemas e coisas sérias. E combina logo, ‘Quando eu crescer, não vou ser assim. Vou ser legal com as crianças. Vou continuar empinando pipas. Vou gostar mais de Chaves que daquele Jornal chato que mostra mais sangue que embrulho de carne de açougue. Não vou mandar a minha filha dormir cedo. Tomar banho, só aos sábados. Nada comer verduras. Almoçar biscoitos também seria legal. Nem parar de fazer barulho porque estou com enxaqueca.’. Mas esqueço eu que todo mundo já fez essa promessa um dia. E do curto tempo em que era uma criança cheia de sonhos e bonitezas pra quando virou um adulto aborrecido e cheio de confusões na cabeça, ai ai ai, não sei quando foi isso, essa doença que cedo ou tarde contagia as pessoas. E briga que briga com gente, é gente chorando, é gente sozinha, e é mais que isso tudo, gente que nem liga que isso esteja acontecendo. Agora você chora e eu olho pra mim e penso ‘ai, lá vem ela chorar, que coisa mais chata’, e não te levo pra aquele nosso mundo tão bonito, te deixo por aqui mesmo. Agora eu me aborreço e você não traz mais aquele bom e velho picolé que sabe que eu tanto gosto. Vai brincar com alguém que pareça estar tão melhor! E ainda temos todos aqueles discursos e argumentos, ‘precisamos ser racionais, as coisas não funcionam mais assim’. É, minha querida, quando a gente entra pro mundo dos grandes, parece que os bons amigos vão pra estante ficar junto com os brinquedos empoeirados e as cartas amarelas. E ainda ficamos cheios de si, ‘ai, olha só, cresci, não gosto mais dessas bobagens’ – sem nem lembrar que nos tornamos finalmente aquele adulto do qual tanto falávamos. 5月4日 Pros dias frios
Quando eu era pequenina (porque hoje, sabe, sou muito grande u_u), os meses de inverno podiam ser torturantes pra mim. Significava que eu teria que passar as tardes dentro de casa, sem malandrar pelas ruas com os amiguinhos, sem praia, praça ou parque. Era aquele céu cinzento feio, aquela atmosfera de estagnação, nada emocionante para a criança semi-hiperativa que fui. Chuvas de verão, no entanto, sempre eram recebidas com a maior empolgação: banho de chuva, poça de lama, e depois que as mães recolhiam suas pestinhas, nos cobriam de banho quente, chocolate e cobertor. Podia mais gostoso? Era só uma mudancinha daquele santo calor de cada dia, mas na certeza de que mais cedo ou mais tarde ele voltaria. Mas com o tempo, comecei a me apegar ao frio. Claro, os banhos de chuva e poças de lama. Dançar na chuva. Cantar na chuva. Vale tudo. Mas quando ele chega mesmo, não raro me encontrar em casa, todos os dias, agarrada num livro, com uma caneca de capuccino fumaçando na mão, camisola e umas pantufas gigantes em forma de bola de futebol nos pés (e meu pai tendo ataques de riso religiosamente todas as vezes que me vê com as queridas pantufinhas). E tome conversa, filme, papel e lápis, tempo olhando pela janela. É Cat Power, é Nina Simone, é Billie Hollyday, Frank Sinatra, Keren Ann, e por aí vai. E inventa-se tudo o que fazer: pintura, escrita, meus planos mais geniais - o ócio mais criativo que se pode ter é no inverno. E de quebra, não chega a ser gélido como aquele de regiões européias em que metade da população entra em depressão. Hoje eu recebo com gosto tanto um dia de sol quanto um dia de chuva. Pois quando esfria lá fora, cobertor e casaco ainda é mais gostoso aqui dentro. Mas quando esfria aqui dentro, só um abraço bem dado pra me livrar do inverno. 5月3日 Ela e o vento
Abriu a janela, expondo-se ao barranco de nomes até perder a vista em folhas que chiavam agitadas, brincando em sombra e cor, e por fim, iam azulando nas montanhas até misturar-se com o céu. E no meio do caminho, perdia-se em pássaros e num lago porcelanado. O lençol frio do vento abraçou o seu corpo, ora fazendo carinho, ora suspendendo com suas mãos invisíveis a saia, os cabelos, e por fim o corpo inteiro.
Quisera me perder nesse céu vermelho-anil-amarelo como em você. Que a brisa suave em espiral e o tapete flocado das nuvens se estendessem sob meus pés. Quisera que teus olhos, pardos, fortes, misteriosos, se perdessem no meu além-mar. E a tarde sépia, fresca, etérea, se inclinasse sob nossa carne amarela, refletida, fingindo cobrir as almas que transcendem nossos corpos. Em êxtase. Quisera que o tempo, com seu tictac métrico, se descompassasse em linhas, em ondas e por fim no ar seco que entra em meus pulmões. E eu e você, meu bem, escolheríamos as cores como bem entendêssemos.
Fechou os olhos e lançou-se. O corpo encontrou o limite no chão. A alma perdeu seus limites para todo o universo. 4月28日 "Todo coração é uma célula revolucionária"
Meu pai deve ser uma das pessoas que tem mais histórias malucas e legais pra contar de quando era novo. No tempo dele, havia um Recife diferente, quase sem carros, muito mais livre. Casa Forte não tinha praticamente prédios, mas sim muitas casas e terrenos baldios onde juntava a turma (enooorme) da rua pra jogar bola. Ás vezes ele tava andando pela rua distraído e os amigos o colocavam dentro do carro, com a roupa do corpo e sem avisar a ninguém (nem a ele) e viajavam por 3, 4 dias sem destino e sem dinheiro, parando nos bares, fazendo amigos e tocando violão. Uma vez ele e meu tio pararam num barzinho, ficaram logo amigos de uma turma toda que tava lá, no final meu tio já estava bêbado, abraçado com um deles, oferecendo a casa de praia... e passou uma batida policial e levou tudinho, eram todos criminosos, só sobrou meu tio e meu pai! (“Poxa! Levaram nossos amigos ._.”) Hahaha
Já abriram um bar que fez muito sucesso, mas faliu, porque os donos bebiam mais que os clientes e quando estavam bêbados, ofereciam rodadas a todo mundo. Já foram pra rodoviária, fecharam os olhos e pegaram o primeiro ônibus que chegou, sem nem saber pra onde iam. Já capotaram, acharam divertidíssimo e resolveram fazer de novo. Já viajaram sertão adentro num caminhão, dormindo em postos, dançando forró em festas em casas de taipa na beira da estrada, ouvindo todo tipo de história. Já fizeram tantas coisas malucas que eu não me lembro agora que eu fico até pensando, as coisas não têm nada que ser programadas demais nessa vida. A tendência que a gente tem é sempre seguir um plano, e profissionalmente, isso até faz sentido. Mas para a vida, luxo mesmo é fazer as coisas mais improváveis numa quarta-feira tediosa, fazer uma viagem sem nem saber onde vai parar, onde vamos comer e dormir. Eu me lembro bem desse carnaval, que a gente saiu rolando no chão de uma avenida às 4hs da manhã, cantou loucamente pra todos os passageiros no ônibus, sambou na chuva sem nem pensar em gripe ou frio, correu atrás de pombos, dançou de olhos fechados sem nem ligar se estávamos parecendo um marreco ou não. Ou das meninas "Vamos pular?" (de madrugada, em cima da madeira de uma balsa) e Eu "Boraaa!" (crente que ia cair no mar, no marco zero); só não caíu sozinha nessa porque duvidei que elas fossem pular comigo mesmo na hora e esperei pra ver... mas a gente bem que podia ter pulado mesmo! E por que esperar até o carnaval? É bom ser meio inconsequente mesmo, ficar de bobeira, sem hora e sem pressa...
Somos jovens, nossos joelhos ainda prestam! Só que criamos o juízo que é tudo errado. Que temos que seguir as bulas, as regras, os tratados e os nossos pais. A gente se preocupa e se desgasta com tanta coisa que não vale a pena, não é mesmo? São tantos detalhes sem importância. Não sei se quero ficar adulta e contar pros meus filhinhos que estudei, fiz amigos, tudo certinho, nos trinques e no fim... não ter história nenhuma! Claro que tudo tem seu equilíbrio. Não quero passar fome também, tenho minhas responsabilidades, tenho que estudar. Ainda vivemos numa sociedade que cobra isso para uma boa qualidade de vida. Dependemos de dinheiro. Mas nem todo mundo tem que se dividir entre o clichê de se tornar uma enciclopédia ambulante ou virar um rebelde porra-louca. Não é por não seguir regras que não vamos ter responsabilidade sobre as pessoas, investir nos amigos, distribuir amor. Temos mesmo é que desconstruir tudo e questionar o que realmente vale a pena seguir. Nosso contexto histórico-cultural ainda tem muitos preconceitos camuflados, muitas coisas que deveriam ser questionadas. Então o que temos que fazer mesmo é a todo momento nos abrirmos para o novo e termos o nosso próprio certo e errado, sem deixar de levar em conta que vivemos em sociedade. Pois se esse mundão ainda tem muito a aprender, quem tem que subverter tudo somos nós! 4月21日 Para uma menina com uma flor
Era uma florzinha. Nem tão grande, nem tão pequena, mas de bom tamanho. Era rara, colorida e de cheiro suave, o suficiente para aqueles que observam pequenezas (e acabam encontrando as coisas bonitas do mundo) se darem por satisfeitos. A florzinha tinha pólen para as abelhas, tinha cheiro doce para as namoradas e tinha alguns espinhozinhos também, porque ninguém é perfeito. E era até preciso mesmo, porque acabavam servindo para espantar aqueles que só querem cor e cheiro, e assim saem de flor em flor e acabam não regando nenhuma. Pois a tal florzinha era bem forte. Tinha o sol e a brisa, tinha orvalho e chuvisco. Mas também tinha a noite e invernos fortes. E a flor mesmo assim sabia que depois da escuridão toda, quando o sol ia lá pro outro lado e parecia não mais voltar, acabava sempre inaugurando o dia numa manhã orvalhada. Também tinham os bichos, os fungos e os moleques que arrancam folhas só por distração. Mas como toda boa flor, suas folhas cresciam de novo, suas feridas cicatrizavam, ainda que deixassem marcas, e ela sempre conseguia chegar no próximo verão. Também tinha as ervas daninhas. Mas pra essas, a flor precisava de ajuda, senão, de tão abandonada, ela acabava perdendo terra pras ervas daninhas e murchava.
Era uma menina. Nem tão grande, nem tão pequena, mas de bom tamanho. Era rara, colorida por dentro e com um cheiro suave só seu, o suficiente para aqueles que observam pequenezas (e acabam encontrando as coisas bonitas do mundo) se darem por mais que satisfeitos. A menininha tinha carinho pras amigas, tinha jeito doce pra namorado e tinha alguns espinhozinhos também, porque ninguém é perfeito. E era até preciso mesmo, porque acabavam servindo para espantar aqueles que só querem graça e palavra, imagem e divertimento, e assim saem de uma em uma e acabam não cuidando de ninguém. Pois a tal menininha era bem forte. Tinha o sol e a brisa, tinha risada e conversa. Mas as pessoas também têm seus invernos fortes. E a menina sabia que mesmo quando o mundo parecia tão frio, pra invernos ainda existem cobertores e abraços. Também tinha a mágoa, o esquecimento, e os moleques que soltam palavras cinzentas só por distração. Mas como toda menina, seus pedaços de si acabavam crescendo de novo, suas feridas cicatrizavam, ainda que deixassem marcas. Só que as pessoas não são certas como estações do ano. E por mais que a menina esperasse pela primavera, ela não veio. E a menina também precisava de ajuda, senão seu coração também murchava.
Era uma menina e uma flor. Era um inverno e a noite. Era um jardineiro e um abraço que nunca se viu. E pra flor murcha, se chuvisco não corre, jardineiro nem abelha vê graça em descolor. Vai pra outra flor. E pra coração seco, se carinho não corre, amigo nem transeunte vê graça em descolor. Vai pra outra menina. Ninguém rega a flor por si só, ninguém cuida da ferida feia e aberta, nem espera até que as cinzas possam se transformar em cor novamente. E a terra vira um poleiro de flor murcha e coração seco. 4月17日 Sobre aquilo que está em todos os lugares
Sabe, eu sempre odiei missa. Sempre pensei que se Deus está em todo canto, a gente não precisa sair de casa nem decorar um pai nosso pra bater um lero com o divino, nem rezar 30 ave-marias porque falou um palavrão. Até porque tenho um abuso imenso da Igreja como instituição, provavelmente por causa da sua podridão histórica mal escondida debaixo do tapete. Mas da última vez que fui na missa, no Piauí, preciso dizer, mesmo sendo parcialmente atéia (que minha avó nunca descubra), senti uma paz enorme dentro de mim. Velhinhas pequeninas com véus na cabeça chegavam com seus rostos mais simpáticos e humildes, pessoas de mãos e corações calejados pelo tempo e pela vida se apoiavam na esperança de que havia alguém por eles no céu, porque na Terra mesmo a coisa tava difícil. As músicas e canções entoadas em coro com suavidade prometiam um mundo melhor e cheio de paz e fraternidade. Parece até que vai ser fácil, parece até que todos lá fora vão dar as mãos como fazem lá dentro. Da porta pra dentro, político não rouba, policial não bate, irmão não bulina com a irmã (talvez por medo) e até malandro fica mais bonzinho. E eu me encho de esperança e quase acredito mesmo, saindo de lá leve, leve. É uma experiência válida.
Mas deixando de lado esse sentimentalismo, não posso deixar de dizer, “qual foi?” quando a Igreja resolveu criar conceitos de repressão sexual, ignorando os desejos do subconsciente de todo ser humano (e da natureza!), e deixando a sociedade cheia de preconceitos enrustidos até os dias de hoje. Assim, ela poderia inventar que comer batatas no ano novo era coisa do diabo, que todo dia 7 do mês deveríamos empinar pipas para enfeitar o reino dos céus, qualquer coisa mais útil. Mas não isso. Pra não falar da já batida história da repressão medieval, ou da pesquisa de células tronco e uso da camisinha nos dias de hoje. Ou dos homens-bomba, machismo e outros fanatismos – embora, neste caso, o fanatismo talvez possa ser mais uma questão de interpretação dos que o fazem, do que exatamente o que a religião prega. Tudo no fundo é o esforço para, como praticamente qualquer instituição humana, não perder o poder e continuar com o domínio ideológico sobre as pessoas. Mas – nossa – sabe quantas pessoas já perderam a vida nesse fanatismo? A história tava até bonitinha quando se tratava de Jesus, transmitindo suas bonitas histórias de amor entre as pessoas, mesmo que também tenha sido invenção, carregava consigo lições morais revolucionárias. Ele provavelmente não transformou a água em vinho, nem tinha os olhos azuis e os cabelos loiros, nem foi tão importante na época em que esteve vivo, mas hoje sua imagem é uma referência boa para todos os povos que nele acreditam.
Eu, desde pequena, aprendi a rezar todas as noites, pedir coisas boas, agradecer por tudo e ouvir as mais belas histórias dos santos. Tudo bem que com o tempo, fui vendo essa história de “Deus está em todos os cantos” mais como um Big Brother e não gostava muito, por exemplo, de imaginar que Deus me espiava tomando banho. Até que, assim como a história do Papai Noel passou, a do Pai, do Filho e do Espírito Santo também passou pra mim e eu deixei de acreditar. Com todo o respeito a quem dedica sua vida a isso, talvez seja influência dessa sociedade cientificista e empírica na qual vivo, mas é mais forte que eu, pra mim a vida é uma coisa muito mais biológica e menos mística mesmo. Talvez também porque na história, a gente aprende que, desde o princípio, quando não tínhamos como explicar os fenômenos da natureza, recorríamos ao sobrenatural e aos mitos, hoje eu acho que só porque a gente não consegue ainda entender muita coisa, acaba acreditando no inexplicável e não aceitando nossa insignificância.
Não que eu tenha que "ver para crer" em tudo, claro que existem muito mais coisas entre o céu e a Terra que podemos imaginar. E na verdade, eu até queria acreditar nessas coisas bonitas que prega não só o cristianismo, como o budismo, espiritismo e tudo mais. Provavelmente a vida seria mais fácil para mim. Mas enfim, quem sabe, né? Quem sabe eu morro achando que vou virar comida de traça e acordo numa borboleta, num ipê florido ou num rato gordo de laboratório? Quem sabe eu morro achando que “Puf! Cabei!” e quando vejo, acordo em cima das nuvens com Gandhi e um monte de anjinhos pelados ao meu redor (ou num caldeirão em chamas lá pelas bandas vermelhas do inferno)? Acho que só vou tirar mesmo minhas dúvidas no fatídico dia em que engolir o apito, porque até lá, tudo o que eu faço é ter menos certezas a cada instante. 4月6日 Um samba sobre o infinito
Não, ela não me colocava no colo, nem fazia cafuné, ou preparava biscoitos, tampouco contava histórias bonitas. Na verdade, era um tanto preconceituosa, às vezes injusta, e gostava das coisas no seu devido lugar. Me dizia para ser advogada porque advogados ganham dinheiro, e só gostava dos netinhos mais branquinhos e esbeltos. Já acertou uma panela na cabeça da minha prima Deus sabe por que, e a história que ela mais tem orgulho de contar é a surra que deu na amante de vovô no meio da sala de cinema, com detalhes sórdidos como ter batido a cabeça da sujeita na parede e ter rasgado a roupa dela quase inteira. Desde pequena, sempre achei que minha avó nunca iria pro céu como as avós normais, por seu jeito meio maquiavélico.
Quem via de longe, irmã da primeira mulher a viver de cinema no Brasil - uma mulher inovadora que lhe deu a chance de participar de um filme aos 5 anos de idade (A Filha do Advogado, 1926, no auge do Ciclo do Recife)- acharia que o futuro não reservava pouca coisa para a minha vó. Era parada na rua por sua beleza ímpar e semelhança com Greta Garbo, filha de família rica, tinha tudo para dar certo. Mas uma pessoa que perde o pai aos 6 anos de idade, a mãe aos 11 e o irmão mais próximo aos 12, não pode ser normal. Ainda assim batalhou, casou com o meu avô aos 18 anos, embora com um leve contratempo – o sogrinho querido mandou prendê-lo para que não se casassem, no dia da cerimônia – e logo teve um filho. Mas o filho morreu aos 2 anos de idade de tuberculose, o que que ela nunca superou. Ainda assim, depois disso, conseguiu criar 7 filhos e viver bem. Mas achando pouco o que Dona Geraldina tinha passado até então, meu avô resolveu arranjar uma amante, e teve um filho simultaneamente com ambas (e nossa! Quase que meu pai não nascia!). Até que ele a largou de vez por uma doidinha aí (que levou uma surra no cinema, como ela sempre se orgulhou de contar), numa época em que o divórcio era uma vergonha e ela, casada desde os 18 anos, sem nunca ter trabalhado, teve que se virar sozinha. Foi um baque tão forte que, 40 anos depois, quando fugia da realidade, ela ainda continuaria achando que era casada com ele. Então entendi que antes de julgá-la de cara pelo jeito seco e amargo, primeiro tinha que ver que o que ela passou não é pra qualquer um.
E eu não posso dizer que ela não foi boa pra mim. Era uma das netas favoritas. Quando ia visitá-la, ela logo chegava com uma caixa cheia de livrinhos infantis, oferecia bolo de rolo com limonada, e até meus 5 anos ela ainda conseguia fazer uns suspiros deliciosos. Nos verões na casa de praia, os primos se juntavam pela madrugada pra jogar cartas, macumbear por aí e contar histórias entre cochichos na sala. Só que todas as noites às 3hs da manhã ela levantava pra ir ao banheiro, e era a maior correria, gente se jogando embaixo da mesa, gente se fingindo de morta, todos quase engolindo as mãos pra não rir enquanto ela atravessava a sala no escuro. Não posso esquecer de quando achamos uma babá eletrônica que estava no quarto de vovó e resolvemos mandar uma “mensagem do além” para ela no meio da noite pedindo dinheiro, e Guilherme, inteligentemente, falou na gravação “VOVÓ Geraldina, aqui é Deus (...)” e ninguém mais se agüentou de tanto rir.
Ninguém pode negar que apesar de tudo, ela tinha uma enorme paixão pela vida. Quem, aos 92 anos de idade, arriscaria dançar um frevo no meio da rua? Ela gostava mesmo era de passear, contar as mesmas histórias 500 mil vezes sobre pessoas que já morreram há pelo menos 20, e recitar poemas grandes e bonitos. Pintava bem e tinha uma coleção de pratos de toda a parte do mundo. Pra acabar enfim, numa cadeira de rodas, oscilando entre realidade e ilusão, assistindo programas policiais na tv aberta e amassando bolinhas de papel pra passar o tempo. Não, vovó, eu acho que a senhora passou por tudo quanto é coisa pra acabar com mais que isso. Dorme agora, seu descanso mais que merecido, vozinha, e vai pra um lugar bem bonito, onde estejam todos os seus queridos que já foram embora e não te deixarão só nunca mais. 4月3日 Hangman in the Shadow
Quando eu era pequena, passei muito tempo sendo filha única. Passava o dia só em casa, inventando brincadeiras. Mas não foi uma infância triste, nem eu ficava contando o tempo até meus pais voltarem do trabalho, como um cachorrinho atrás da porta. Nas horas que eu tinha só pra mim, um universo inteiro surgia da maneira que eu achasse mais bonita. Tinha as melhores amigas, “ReDeca” e “Dianinha”, sempre tinha alguma Lívia ou "Lilham". E eu colecionava nomes de três letras; entre os favoritos, estava Mel, Lua, Bel, Bia e Leo. Também gostava de nomes de flores. Cada um tinha um cantinho seu, etiquetado com o próprio nome, uma história de vida e uma personalidade peculiar. Eu também gostava muito de pintar, escrever cartas de amor e contos. Quando minha mãe finalmente chegava em casa, nunca sabia o que ia encontrar – uma pirata, uma bailarina, uma detetive, uma professora – e a casa de cabeça pra baixo, claro. Lá estava eu, toda fantasiada, possivelmente em alguma expedição por terras longínquas do Egito. Também morei por muito tempo dentro de uma caixa, até que, tristemente, passei tanto tempo dentro dela que ela não resistiu. Às vezes devia ser complicado também pros meus pais, como a tarde em que quase matei meu pai de susto, ao me encontrar sentada no parapeito da varanda, balançando as perninhas a metros e metros do chão, só pra olhar as flores vermelhas do Flamboyant que se debruçava sobre o muro. Minha solidão era plena e trazia incríveis descobertas, das possíveis conversas que as formigas trocam quando se encontram, às horas que eu passava procurando o dragão de São Jorge na Lua, ou ao mistério dos bocejos.
Hoje parte de mim agradece muito a essa infância que me fazia tão satisfeita com a própria companhia. Foi o que me ajudou quando não tinha mais quem fizesse. Hoje não tenho mais bonecas, mas as histórias, os personagens, sonhos, heróis e vilões continuam por aqui. Ir ao cinema só, dialogar por horas sobre desde os homens-caranguejos do Recife ao altruísmo do profeta gentileza podem ser coisas divertidas sim, embora melhores ainda quando acompanhada. Tudo bem que às vezes isso me mata de vergonha, como no dia em que eu tava lembrando de um filme de terror e quando me dei conta, estava quase correndo, segurando o pescoço e com os olhos arregalados, uma visão provavelmente estranha pras outras pessoas que passavam no meio da rua. Ou um dia desses que meu professor de história moderna hesitou no meio de uma frase pra tentar entender por que eu estava rindo abertamente pra ele enquanto ele falava de alguma tragédia histórica (provavelmente se indagando “essa louca é sádica, está sorrindo DE mim, PRA mim ou está querendo dizer alguma coisa? Oo”) – até que eu percebi o que estava fazendo e disfarcei. É, acho que preciso me cuidar, ou daqui a pouco vou estar que nem o monstro de Kafka, metamorfoseando até virar um réptil esquisito que não consegue se comunicar mais com ninguém... |
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