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2月4日 O Kitsch
Uma das coisas com que mais me identifiquei quando li Kundera foi o capítulo que falava sobre kitsch. Foi apaixonante ler aquilo porque era uma idéia acerca das coisas que cutucava constantemente a minha cabeça, então chega o danado e traduz tudo certinho! Eu iria até a república tcheca só pra tacar um beijo nele por isso. Segundo disse, o kitsch seria a tentativa de exclusão de tudo o que há de inaceitável e contraditório na existência humana. Ele não aceita a ‘merda’.
O Kitsch apela para o sentimentalismo, utilizando-se de imagens-chave – a filha ingrata, a pátria traída, as dores do amor, homens públicos beijando criancinhas – sendo o ideal estético de todos os movimentos ideológicos e partidos políticos, propagandas, livros, filmes, religiões, até mesmo nas relações entre as pessoas, todos com seus clichês e imagens-chave. E há até mesmo um kitsch-underground, ou kitsch-anti-kitsch – ninguém está a salvo!
“O Kitsch faz nascer, uma após a outra, duas lágrimas de emoção. A primeira lágrima diz:
– Como é bonito crianças correndo no gramado.
A segunda lágrima diz:
– Como é bonito ficar emocionado, junto com toda a humanidade, diante de crianças correndo no gramado.
Somente esta segunda lágrima faz com que o Kitsch seja o Kitsch.”
O universo da cultura de massa atual, cujas exigências de mercado baseiam-se nas tendências gerais de consumo, obedecem ao padrão médio das imagens-chave que formam o kitsch de seu público-alvo, e têm conhecida falta de originalidade e conteúdo na maioria das vezes. Esse é uma de suas expressões mais óbvias – já virou até lugar-comum brincar com a satisfação familiar matinal de um comercial de margarina ou o sucesso com as mulheres que faz um homem que usa Axe. Tenho fé que ninguém é ingênuo a ponto de não notar o que há por trás nesses casos. Mas o Kitsch que eu considero mais perigoso é aquele que mexe com nossos ideais políticos e religiosos, camuflando nos discursos apaixonantes potencial para o fundamentalismo. Foram esses que consumiram milhares de vidas ao longo da história e possibilitaram a adesão a atrocidades como o nazismo. Não que as outras formas também não sejam alienantes e hipócritas.
Os olhos que se enchem de orgulho ao lembrar dos grandes movimentos que culminaram em 1968 também refletem o grande Kitsch por trás do que realmente aconteceu nessa época de grandes idealizações. Não que não tivessem tido grande importância e revolucionado o pensamento ocidental. Isso é inegável. Mas também não exageremos.
“... o que a repugnava não era tanto a feiúra do mundo comunista... mas a máscara de beleza com que ele se disfarça, ... o kitsch comunista.”
Mais além, Kundera ainda diz que, por maior que possa ser nosso desprezo por ele, o Kitsch faz parte da condição humana. E, sendo reconhecido como tal, ele perde seu poder totalitário. Pode-se chorar com um filme sentimental, pode-se empolgar com uma música dita “brega”, sem necessariamente estar se rendendo ao Kitsch. Isso só aconteceria no caso de se levar a sério as emoções despertadas pelas imagens-chave do Kitsch em questão, no caso de se deixar escorrer a ‘segunda lágrima de emoção’ que torna Kitsch o Kitsch.
“O que restou dos agonizantes no Camboja?
Uma grande foto da americana com uma criança amarela nos braços.
O que restou de Tomas?
Uma inscrição: desejava o reino de Deus na Terra.
O que restou de Beethoven?
Um homem carrancudo com uma cabeleira inverossímil que pronuncia com voz soturna: ‘Es muB sein!’
E assim por diante, e assim por diante. Antes de sermos esquecidos, seremos transformados em Kitsch. O Kitsch é a estação intermediária entre o ser e o esquecimento.”
E encerra de forma genial. 引用通告引用此项的网络日志
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